• Gabriela Mund

Sobre dar as mãos e seguir juntos... em paz...


Meus textos sobre a infância e sobre educação, geralmente não são muito bem recebidos por aqueles, que agarrados em suas crenças sobre educação, mascaram as feridas da sua infância repetindo o padrão de educação que sofreram, e do qual, não dificilmente, são exímios críticos.

Sessões e mais sessões de terapia, livros de autoajuda, todas as técnicas são ineficientes para apagar os danos de uma infância. Não tem jeito. A infância por mais que não se valorize, é a base da construção de todos os seres humanos, e é geralmente nessa fase, em que eles são violentados emocional e psicologicamente por seus tutores.

Para continuar o texto de hoje, que hoje é um desabafo, vou mencionar o texto da Profª Marisa Zanoni Fernandes, na introdução do material da sua disciplina:


“De modo geral, as crianças foram historicamente uma presença invisível na vida de muitas comunidades. Há pouca crença no seu potencial, na sua inteligência e na sua capacidade para compreender o mundo que a cerca. São vítimas da retórica das normas, da violência disciplinadora que os adultos criam nas famílias, nos meios de comunicação e na educação. Estas concepções são marcadas pela representação social deste grupo etário ou, em outras palavras, o modo de ver as crianças, a realidade social em que vivem suas infâncias, são reveladoras da própria sociedade e dos seus métodos civilizatórios. Sarmento corrobora nesse sentido, afirmando que as sociedades “são, de algum modo, aquilo que propõe como possibilidade de vida, no presente no futuro, às suas crianças.” (SARMENTO, 2008, p.32)”


Estes dias em casa, as coisas que ouço e vejo me fizeram realmente encher o saco de tudo isso e escrever um texto, que talvez não agrade a ninguém, mas que pelo menos sirva de reflexão para alguém. Que seja um alguém, não tem problema... mas que sirva.

Infelizmente as pessoas tem o hábito de achar que criança não sabe de nada, mente, e exagera. O que ela fala ou sente, desde uma reclamação da escola, de um amigo, de tudo, e de todos, se desconsidera! Ninguém leva a sério o que uma criança diz. Se chega em casa reclamando de um professor, não é ouvida. Se reclama de alguma coisa, é ignorada. Afinal, não importa.


O mais engraçado, para não dizer, triste, é que até a escola lida assim com eles. Fala-se muito do abuso dos alunos, da falta de educação dos alunos, da violência dos alunos. Que legal! Mas alguém parou para ouvir o filho? Alguém percebe o que os professores falam em sala de aula? Alguém sabe os abusos que as crianças vivem diariamente por professores que não teriam estrutura emocional para estar ali? Alguém percebe o quanto esses professores mentem? Enrolam?


Eu já estive em muitas salas de aula, desenvolvendo um projeto de artes, e ouvi coisas absurdas como: vocês parecem bichos! Calem a boca! Vocês não sabem nada!!! Sim, palavras vindas de pessoas que concluíram o curso de pedagogia e que estão em sala de aula com os seus filhos!

Sim... confio nos meus filhos... escuto cada detalhe da aula que eles desejam me contar, e já fui inúmeras vezes na escola reclamar de professores que abusam da autoridade por que não sabem mais o que é respeito. Respeito é uma via de mão dupla e é aprendido com exemplo. Se professores mentem e enganam as crianças escancaradamente em sala de aula, e na frente dos pais se fazem de tadinhos, como vão conseguir respeito?


Sim... as crianças estão erradas muitas vezes, mas os adultos também estão.


Sim... como todo ser humano, crianças aprendem a mentir e a jogar. Sim... isso acontece sim... agora, cá entre nós, vale lembrar... um exemplo vale mais que mil palavras...


Hoje me questiono, como pessoas que sofreram na infância, por um teórico abuso de poder, por cobranças desnecessárias ou pela não aceitação de como eram, podem repetir esse comportamento com seus filhos.

Sim... as pessoas, mesmo em outro século, mesmo com outras possibilidades de tudo, elas continuam impondo um regime abusivo dentro de casa.


Gente, tenho dois filhos. Dois adolescentes. Vivemos em paz e harmonia. Cada um respeita o espaço e o tempo do outro. Conversamos sobre tudo. Debatemos vários assuntos com maturidade. Eles fazem as tarefas da casa e não falo em “ajuda”, pois eles fazem parte da casa, e isso é uma obrigação, assim como são as minhas.


Tudo dentro de uma paz e do respeito. Respeito... Gente! É urgente que repensemos os valores e a forma como educamos e criamos nossos filhos.


Quantas sessões de terapia são necessárias para corrigir erros de uma infância? Não há números, por que não há cura para as feridas abertas nessa fase.


Por favor, vocês não deixarão de ser pais e mães se sentarem para conversar com eles. Para escutar. Não precisam aceitar o que eles colocam, mas devem dialogar. Tudo pode ser debatido sem que haja imposição. Ambas as partes são capazes de compreender, ter opinião e tem condições de contribuir com algo para todas as situações.


Sei que é difícil, principalmente se os seus filhos já são maiores. No início eles vão se sentir livres demais e abusar talvez. Mas mantenha o diálogo, busque a expansão da consciência sobre cada assunto. Mesmo sobre a escola... se a vida toda ele for obrigado a estudar, dificilmente ele vai aprender a importância e vontade de estudar...


Pais e mães... não é utopia!


Amor, conversa aberta, sem mentiras, com clareza. Respeito, liberdade... é somente assim que construiremos uma sociedade mais saudável.


Chega dos abusos e da autoridade doentia que permeou a infância desde os tempos antigos. Não temos mais a desculpa de que não sabíamos fazer diferente.


Sim... vai ser preciso mudar... mexer em tudo... sair da zona de conforto. Aprender junto com eles, construir uma nova relação, semear um amanhã mais harmônico dentro e fora de casa.


Novos tempos pedem novas formas de olhar o mundo. Novas formas de agir. Novas formas de se relacionar.... Pense nisso... todos tem a ganhar...


Foi um desabafo... cansei de fazer de conta que não vejo nada... cansei de ver desculpas como “pra mim também foi ruim e eu sobrevivi, você também vai crescer e pronto” Mas pergunto: qual o preço que se paga?


Existem muitos “mas...” aqui no meio... eu sei... mas espero que entendam o principal...


EU SOU Gabriela Mund



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