• Gabriela Mund

Uma visão sobre a "escola da aceitação"

Atualizado: 27 de abr.



De repente algumas pessoas no mundo, são despertadas para um novo olhar. De repente algumas pessoas no mundo se encontram em pensamentos e desafios aos quais se dedicam, mesmo que a princípio tudo possa parecer impossível. E por essa dedicação em criar um novo olhar, é que as mudanças acontecem.

Esse escrito tem como objetivo plantar essa semente no coração de quem ler. Plantar essa semente, significa levar para um outro alguém essa importante reflexão. Falar sobre aceitação ao invés de inclusão, hoje pode parecer utópico, mas em breve será uma realidade.

Tirar o poder do rótulo de deficiente sobre uma pessoa, aliviando o peso deste. Anular o poder de um laudo que prova que alguém não pode ser quem ele é, alterando o destino e a história de alguém.

Buscar o que o Desenho Universal de Aprendizagem começa a esboçar, mencionando um novo padrão de educação para todos, onde todos caibam, e não existam mais adaptações. Onde todos sejam considerados iguais de fato e aprendam a ser cooperativos ao invés de competitivos.

Toda essa mudança no meio educacional e social precisa partir de um ponto muito importante e mais íntimo: a família! A família talvez seja a peça chave nesse movimento de aceitação, pois precisa ser a primeira a aceitar “os seus” como são. A partir da consolidação da aceitação da família, a criança se sentirá amada e segura para sair de dentro de casa, sabendo quem é e a que veio. A partir do desenvolvimento da auto-estima, fundamental a cada ser humano, tudo será possível.

Todo movimento deve partir de dentro de cada um, por isso falamos neste trabalho em processo orgânico, pois começa de dentro. Começa no sentir a si mesmo. Começa encontrando a sua verdade, a suas habilidades e sendo capaz de construir a sua história. E por isso a família é a peça chave para todo esse processo.

Voe alto com Float, e se deixe levar por essa nova forma de vida. 2. LAZER, APRENDIZAGEM, INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA Quando falamos em diferenças, consideramos que os não destacados como diferentes são normais. Mas essa questão é bastante sensível no mundo que vivemos, principalmente por que as diferenças entre todos tem se tornado cada dia maiores e o padrão tem sido estabelecido por parâmetros bastante exigentes e perfeitos.

Quando definimos leis que garantem a “inclusão” das pessoas diferentes, determinamos quotas para os negros em universidades, estamos, antes de qualquer coisa, aumentando a diferença que existe entre as pessoas.

O Estatuto da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015), em seu artigo primeiro, estabelece que as pessoas com deficiência tem direito à inclusão social, prezando o exercício de seus direitos e sua liberdade. Já no artigo segundo, é definido a quem se destina essa lei, conceituando as deficiências.

Durante os 127 artigos desse Estatuto, são definidas as Leis que deverão garantir o processo inclusivo dos deficientes, a garantia de seus direitos e as obrigações daqueles tidos como “outros” ou “normais”, para com essas pessoas que a Lei define como diferentes.

A partir do momento que destacamos aqueles que não consideramos normais e os enquadramos em leis diferentes, esquecemos do que está na Constituição Federal (1988), cap. I, art.1º “Todos são iguais perante a Lei sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros, residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...”. No cap. II, art 6º, encontramos “São direitos sociais, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados na forma dessa Constituição.

Bom, podemos perceber, que somos todos amparados pela Lei Maior do Brasil, quanto à igualdade de direitos, quando lemos “sem distinção de qualquer natureza”. Podemos citar ainda a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todas as Conferências Mundiais realizadas nesse sentido, como Declaração de Jomtien (1990), Declaração de Salamanca (1994), Declaração de Dakar (2000) ou ainda a Declaração de Incheon (2015), e percebemos que base legal e teórica para o processo inclusivo existe.

Podemos mencionar ainda a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2006), que vai um pouco mais além e nos anima no sentido que abordamos nesse trabalho, a aceitação das diferenças, e sugere que as deficiências, ou melhor, os diferentes impedimentos físicos, sensoriais, intelectuais ou mentais, como tantas outras características, passam a ser consideradas como parte da diversidade humana.

Não nos faltam documentos nacionais e internacionais garantindo espaço, garantindo igualdade a todos.

Entretanto, gostaria aqui, de fazer uma reflexão, de onde parto para o desenvolvimento desse trabalho. Em novembro de 2019, a empresa Pixar lançou uma animação, curta metragem, idealizada Bobby Rubio, baseada em sua relação com seu filho autista. O nome da animação é Float (m.youtube.com/watch?v=y7RBc63owY0), e conta a história de um pai, que sopra uma flor dente de leão e quando as partes se soltam e começam a voar, seu filho também voa. O pai então se assusta, e fica com medo que os outros vejam que seu filho é diferente. Por medo de vê-lo voar na frente dos outros o faz carregar uma mochila com pesos para mantê-lo no chão, escondendo-o dentro de casa na maioria das situações, para que não percebam que seu filho é diferente. Entretanto, no final da animação a criança, num parque, em meio a outros pais e crianças, tira a mochila e começa a voar para espanto de todos. O pai percebendo os olhares de reprovação de todos ao redor, pega o filho, e num momento de descontrole pergunta: POR QUE VOCÊ NÃO PODE SER NORMAL? Nesse momento então, ele percebe o que estava fazendo com o filho, e deixa-o livre para voar, e os dois se divertem no parque, independente da opinião dos demais ali presentes.

Essa animação nos leva a considerar o termo “aceitação”, inclusive, ou talvez, principalmente, por parte das famílias, que no fundo, na maioria das vezes, desejam que seu filho, seu irmão, seu neto, seja normal, e não como é.

Aceitação segundo o dicionário Online (www.dicio.com.br), é: a “ação de aceitar, de receber aquilo que lhe é ofertado”. “Ato pelo qual se aceita: aceitação da proposta.” Manifestação de aprovação: o livro teve boa aceitação.” “Conformidade diante de; resignação; aceitação.”

A partir do momento, em que “rotulamos” o outro como diferente, e promovemos um processo de inclusão, buscando incluir o diferente, estamos aumentando, de forma talvez inconsciente, o abismo entre todos.

Temos leis que garantem a inclusão, temos salas adaptadas, salas multifuncionais, temos professores AEE, mas isso não é uma realidade.

Olhando um pouco de perto, é possível observar que muitas vezes faltam técnicas aos profissionais e as famílias que não sabem como lidar com as situações que se apresentam no dia a dia, mas então me lembro da citação de Carl Jung “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Essa fala reforça o objetivo desse trabalho, que pede a todos os seres humanos, atitudes realmente humanas, como amor, fraternidade e principalmente, respeito ao outro.

E assim, mesmo com Leis, muitas dessas crianças continuam sendo escondidas em casa, por pais, que independentemente da classe social, não aceitam a deficiência do filho. Temos professores que não se empenham em incluir um aluno com deficiência. Temos também crianças que apontam o dedo e dizem rindo a deficiência que o colega possui.

Há sim uma questão física para permitir a inclusão, e está aí o Projeto LIA para nos mostrar que muito ainda precisa ser feito nesse sentido dos locais públicos de lazer, mas esse processo deve ser “orgânico”, isto é, ele precisa ser sentido pela sociedade, e não estar apenas fisicamente presente em parques e escolas.

Mas vamos continuar refletindo.

Por exemplo, se em um grupo que estivesse num parque, com brinquedos adaptados para todos, e uma criança com Síndrome de Down, que é uma deficiência que é visível, chegasse para brincar com as demais. Qual seria a reação das demais? Acolheriam?

Em outro caso, uma mãe leva um filho autista de 3 anos em uma atividade de arte com outras crianças. A mãe já chega falando que o filho é autista que ninguém se preocupe, que sabe que o filho incomoda, então vai embora se precisar. Isso estaria certo? Como se sentiria a criança que foi levada embora?

Bom, nesses dois casos, a inclusão (garantida por Lei) foi cumprida, mas a aceitação no seu aspecto emocional, não é real. Em ambos os casos, estranhos e/ou família mostram nitidamente a exclusão do diferente.

Buscar promover a aceitação como um processo orgânico se mostra urgente. Onde as famílias, a escola, a sociedade olhem o deficiente, como um igual, e não mais como um deficiente. É apenas um ser humano com outras habilidades, diferentes das demais, que precisam ser encontradas, trabalhadas, incentivadas e aceitas, pois cada um é um ser, individual e único.

Mozart por exemplo, um exemplo clássico de um autista, com excentricidades, que seguiu uma vida, dentro da normalidade estabelecida pela sociedade, que teve a chance, talvez por não ter um laudo de autismo na época, de se encontrar com seu verdadeiro dom e nos presentear com sua música.

Nesse sentido, quantos autistas são músicos incríveis, pintores, artistas fantásticos, e não se dedicaram a fazer horas de estimulação semanal para se encaixar naquilo que os outros achavam que ele deveria ser, mas que simplesmente são o que são, da forma que são. E é nesse contexto que se torna indispensável a aceitação da família como micro sociedade. O encontro consigo mesmo e com suas reais habilidades será o grande início de todo o novo processo que surgirá em breve.

Considerando o aspecto acima, trago aqui dois conceitos que considero importantes para tratar desse tema: Deficiência Primária e Deficiência Secundária. Segundo Vygotsky, a deficiência poderia ser dividida em duas partes: A deficiência primária que corresponde a parte física do indivíduo (lesões orgânicas, cerebrais, malformações, alterações cromossômicas, entre outras); e a deficiência secundária que corresponderia a deficiência de interação na sociedade, pois ele considera essa sociedade, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da criança com deficiência.

Observando a proposta desse trabalho pelo um ângulo de aceitação emocional por parte da sociedade, e não apenas em leis e tecnologias assistivas capazes de proporcionar aparente a inclusão, percebemos que a inclusão precisa ser pautada na aceitação pelo que o outro é, reduzindo assim, as deficiências secundárias, que podem ter uma consequência significativa e considerável analisando o ser individual, e a relação dele com o grupo social.

Voltando as reflexões, imaginemos um pequeno grupo brincando de pega-pega num parque não adaptado, correndo e se divertindo. Então, chega nesse ambiente, uma mãe, empurrando uma cadeira de rodas com uma menina de aproximadamente 8 anos. A Mãe retira a menina da cadeira e a coloca sentada na caixa de areia e lhe entrega algumas pás e baldinhos, forminhas e regador. As demais crianças então vendo a cena, se juntam e criam uma cidade de areia, todos juntos, sentados no chão, onde passam um bom tempo, brincando em harmonia.

Ou ainda, um pai leva o filho deficiente ao parque e brinca com ele no colo, indo no balanço, descendo no escorregador, colocando-o dentro dos túneis, brincando de esconde-esconde lúdico. Outras crianças achando legal a interação de pai e filho, se juntam a brincadeira ao invés de apontar o dedo, ou torcer o nariz. Creio que essas cenas sejam possíveis, desde que o processo deixe ser “inclusivo” e passe a ser na base da aceitação.

Durante toda a história vivemos momentos de separação, várias foram as fases e a evolução se deu através do aumento de consciência do ser humano, que traduziu em normas o pensamento inclusivo. Tempos em tempos, as leis traduzem a evolução, passando de momentos de extermínio, exclusão, até chegarmos no sistema que busca ser implantado hoje. Mas a consciência precisa mudar novamente. E hoje é ela quem vai ter que puxar novamente todo o processo de evolução, até que as novas leis sejam revistas e simplificadas no sentido da efetiva e prática garantia da igualdade, independentemente de qualquer questão.

No sentido da evolução desse pensamento, encontramos um termo, ainda pouco conhecido, o DUA (Desenho Universal de Aprendizagem), que nasceu entre 1990 e 2000 de um diálogo com a neurociência que busca compreender a forma como o cérebro aprende, buscando criar um modelo único capaz de inserir todos no mesmo contexto e nas mesmas atividades. O conceito defende a ideia de uma aprendizagem coletiva, onde o professor é o guia, e não é o único agente da aprendizagem. Nesse modelo, não é necessário fazer ajustes de acordo com os alunos matriculados em cada turma, pois esse modelo já contempla as diferenças e se baseia nelas, para o engrandecimento do processo pedagógico e da aprendizagem de todos, como iguais. Ao abordar os diferentes conteúdos, de diversas formas, o professor aumenta as chances de enriquecimento das aulas, despertando a curiosidade e o interesse de todos.

Esse é um novo olhar que serve para reflexão. Serve para os acadêmicos que desejam se desenvolver no sentido de ensinar outro ser humano, desenvolvam um lado humano, sejam emocionalmente inteligentes, capazes de tratar uma criança em formação com responsabilidade e amor, sabendo de seu papel fundamental na sociedade. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS


O mundo nos leva ao enquadramento. O mundo nos sugere a perfeição. O mundo nos cobra comportamentos coerentes. O mundo exige sermos competitivos. O mundo nos induz ao não-amar. E onde nos levará esse mundo cheio de regras, sem amor e sem humanidade?


Leis que não são cumpridas dentro das casas, não serão cumpridas dentro da sociedade, uma vez que é na família que tudo começa. É dentro da pequena estrutura familiar que os principais conceitos e valores devem ser ensinados.

Hoje em dia, o ser humano criou o hábito de exigir do outro, exigir das autoridades, exigir do mundo, aquilo que nem ele mesmo consegue implementar em sua pequena célula social.


Toda mudança na “macro” sociedade, começa no “micro” universo de si mesmo, e continua na família que apoia o “diferente”, e o aceita como igual. Vai para o parquinho que vendo a aceitação do outro, reflete sobre seu “sentir” em relação aquele outro ser, e aceita da mesma forma. Chega na escola e encontra uma equipe dedicada a acolher, aceitar e amar cada diferença, de cada um, ao invés de apontar dedos e pedir laudos que justifiquem a exclusão daquele ser, mesmo dentro da escola inclusiva.


Nesse conceito de aceitação, ao invés da inclusão, consideramos uma diminuição das deficiências secundárias, que atingem o emocional, a auto estima, a auto realização, todo o processo de desenvolvimento como Ser humano.


Se na Lei Maior do Brasil, existe a garantia da igualdade de todos, creio que o ponto de partida desse trabalho, não seja a busca por leis que garantam esse direito.


Se já existem tecnologias desenvolvidas para facilitar e acolher os portadores de deficiências e estas podem ser implementados em locais públicos após a aprovação da autoridade pública local, creio também não ser esse o ponto inicial.


Na concepção desta autora, o ponto de partida, para que o deficiente seja incluído na sociedade, de forma a se sentir realmente igual, acolhido, compreendido e amado por todos, a palavra a ser usada é a aceitação, na expressão: aceitação das diferenças.


*trabalho semestral produzido para o curso de Pedagogia em 2020/1.


EU SOU Gabriela Mund




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